domingo, 5 de maio de 2013

Sentido

O que julgava ter
Fugiu-me por entre os dedos
Ou será que ainda é meu?
Arrogância é ligar o pertencer
À dor de não poder ter

Sortudos serão os outros
Aqueles cujo toque tudo transforma
Vem de encontra à sede da posse
Hipnotizados pela canção da ganância

Hoje o tempo passou sem nos avisar
Há-de haver um luar sem fim
Por fora de ti
Por fora de nós
A toda a hora confundo o eu de mim

Já nada interessa
Parte para outra conversa
Foge da pena sem sentido
Aprisionada pela liberdade
Às vezes sou eu que puxo
Quando estás longe

Viagens ao centro do ser
Sonha que não estás só
A vontade criada pela coragem
Ninguém quer nada de nada
Repito
Ninguém quer nada de nada
Repete
Ninguém quer nada de nada!

Tenho vergonha disto
Custa muito perceber?
Gostava, mas não consigo
Consegues?
Elucida-me com a tua ironia
Queria que tudo fizesse sentido
Mas adoro perdê-lo...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Memórias

Estamos de volta ao teu prazer
Acutilantes diversões sem saber
Qual o mais intrépido perigo
Na amizade do nomeado verdadeiro amigo

Practicas diferentes tipos de ilusão
Sempre segura com o mundo na mão
Prevês o passado na tua bola de cristal
Vives no futuro prevendo o presente mensal

Mudas de alma como de pele
Doce falsidade como mel
Inspirada numa voz
Questionas o porquê de ter existido um nós

Recordas felicidade nos instantes
Quando chegaram a ser amantes
Uma das maravilhas das histórias
É poderem apagar memórias

Nostalgia

Sensações de nostalgia vagueiam pelo ar
Foram tempos passados, tempos vividos
Memórias lançadas nas ondas de um mar
Na esperança de virem a ser repetidos

Repleta de gargalhadas a irmandade ficou
Guardamos em nós as aventuras da utopia
Hoje sei que da saudade nada sobrou
Criámos ligações na base do que cada um queria

São só coisas

Devaneios, são só devaneios

Rasga, puxa, cola, pinta
Mexe, toca, sente, corre
Passeios, são apenas passeios

Respira, olha, cospe
Arranha, grita, come
Desejos, são apenas desejos

Fecha, parte, bate
Sorri, salta, suspira
Bens, são apenas bens

Coisas, são só coisas...

Prelúdio

Pensei em contar-te o silêncio da história
Seduzir-te com o encanto das palavras
Mas perdi, foste tu quem gritou vitória
Em cada canto do pensamento quis saber onde estavas

Os ruídos vão crescendo
A sirene da mágoa começa a tocar
No prelúdio da vida encontro conforto
Passei à frente da fila, já não quero voltar

Se a vida é uma peça de teatro
Então vive até ao fim deste acto
As personagens revelam-se no fim
Tenta fugir sem quebrar o pacto

Eu quero estar lá
Naquele lugar reservado
Não vou esperar por ti
Ouve com atenção o meu grito calado

domingo, 31 de março de 2013

Actores do medo

Renasce, deixa que aconteça
Reza, para que não desapareça
Nessa ilusão começo a sentir
O orgulho crescer

Transforma a visão a cada progresso
Transgride regras desenhadas pelos mitos
Transmite valores proliferantes
Transcreve lendas do mundo bom
Transnoita viajando pelos universos frágeis

Renasce, deixa que aconteça
Reza, para que não desapareça
Nessa ilusão começo a sentir
O orgulho crescer

Se sei o que mais ninguém sabe
Tu matas o imortal
Se acho que as estrelas brilham
Tu tocas o infinito
Se aguento a descrença credível
Tu ajudas os actores do medo

Significados espalhados pelo chão
É óbvio que mentes com prazer
Mas no fundo da razão
Aprendes a sorrir e não sofrer
As unidades fazem o conjunto
Surgem blasfémias na prisão dos reféns
Os justos esperam-te como líder
Agora volta, evoca a aflição moral
E deixa que o bem se sobreponha ao mal

quinta-feira, 28 de março de 2013

Marinheiros

Marinheiros do barco das três dimensões
Naveguem por mundos nunca antes desvelados
Sigam os pássaros lendários
Guias perpétuos da cidade do amor

Odisseias desmedidas foram reveladas
Haverá razão para tanto sofrimento?
E se inventássemos o mar de volta?
Vamos partir para ficar
Amar para sonhar

Velas a estibordo na nau gigante
Abrigam os serventes estipulados pelos antigos
Cada missão é alcançada
Nos vários eus coleccionas os teus amigos

Chegado o destino
Olhas como que através do horizonte
É que hoje estou quase a cair
Seguras-me pela mão?
Segredas-me ao ouvido o mais subtil pormenor
Ouvi com todas as letras o teu pedido:
"Quero voltar para a ilha"

domingo, 24 de março de 2013

A loucura é uma bênção

O dia apareceu sem acabar
Nunca teve jeito para fazer brilhar
Se soubesse começar
Esquecia a forma de terminar

Rebentaram as incongruências lúcidas
Surgem sem avisar no sótão da mente
O invisível mundo ressurge divinamente
Passando pelas paredes translúcidas

Que simulação é esta?
Simulacros do que já foi e não volta a ser?
Nada é igual a tudo
E tudo é igual a pouco
A criação personalizada vai progredindo
A cada passo evoluindo
Deitando os braços à inspiração
Porque ela não tem apenas uma cara
São várias
Divididas nas personalidades do mais puro louco

Só no auge da vida tens a noção
De que a loucura é uma bênção...

terça-feira, 19 de março de 2013

Cidade antiga

Quando a pedra descola o passeio
Os viajantes das ruas antigas observam
De mãos dadas saltaram o receio
Esperando ver o que os espelhos lhes reservam
Pois à beira de cada rio
Fundem-se imperfeições escondidas
Sorrindo para o amor frio
Encontram as suas vidas perdidas

Já fui e não voltei
Antes eras e ficaste
O teu eu sem ti
O meu eu contigo

A madeira surge macia ao toque
Cada vez forçada a arder
Tudo isto é algo escuro e sujo
A visão alterada julga ser eficaz

Som do trompete

Fica
Fica comigo por um momento
Sente
Sente o falso acreditar

Como nos tornámos em pó?
A partir das nuvens voaremos
Pelos ventos rasgando os sóis
Juntos, amarrados num só

É fácil negar
Vivemos todas as vidas
Viciado no som do trompete
Justificámos insensíveis razões

Vinga-te
Vinga-te do sangue derramado
O famigerado ódio mal amado
Não voltará mais
Pois na frente da alta alma
Como as linhas da tua palma
Manterás os trunfos vitais

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Leva-me

No meio dos desafios ganhas a corrida frívola
Pois se o combate dos anos é dado como acabado
Estás livre para participar na maratona da decadência
No fim verás com a maior prudência
Todos os cantos formam o mundo redondo
Se vocês pudessem viver por mim
Viver por mim

Isto sabe tão bem
Acordar no sonho eterno da realidade
Fomentando a busca incessante da verdade
Sabe tão bem
Tão bem

Reage com serenidade
Quando no interior mil explosões eclodem
Isso é o que ele diz
O que ele diz

Nunca esqueças o amanhã
Carrega os presentes do hoje duradouro no braços
E por favor
Leva-me para sempre na palma da tua mão

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Insónias

Não tentes compreender-me nem tirar algo de mim
Aceita isto como um conselho
A verdade é que muitas vezes nem eu o consigo

Tento dissecar as questões que me atormentam
Será possível percorrer maratonas no pensamento?
O desgaste torna-se predominante

Existem centenas de razões denominadas dúvidas
Quero não amar para não adormecer
Mas doem-me os olhos e sofro de insónias

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Für Elise

Enquanto danças
A melodia viaja no ar
A tua saia rodada brilha
E os pés descalços baralham o chão

Tento desenhar a rosa do teu cabelo
Troco o vermelho pelo preto dos teus olhos
Nada faz jus à tua beleza

Sorris para o teu reflexo no espelho
Um braço acima do rosto
E outra mão perto do ventre
Contornam a mais bela silhueta

Pareces ser tão real
Gostava de ter o dom da vida
Para te libertar
Rendo-me ao lápis e papel

Todos os dias estarei aqui
Na esperança de um dia te ver nascer
Pois preciso de ti
Bailarina da caixa de música

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Paraíso dos infernos

A vida anda perdida sem saber que rumo tomar
Procura distantes miragens de felicidade
Flutua na corrente do tempo
Mas e depois?
A consequência vem sempre depois

Refugiada no paraíso dos infernos
Claudica com cada tentativa falhada
Imerge astuta e descarada em cada nascimento
Para depois ser confundida com sofrimento
Não passa de uma pobre mimada

Respira, volta ao início
Não a venças no seu raro vício

Quer aprovar o sentido instituído nos demais
Cega de vontade esquece sentimentos reais
É tudo o que vê e lê
Mas agora desisto...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Vicio são


Vestidos de perversidade e despidos de pudor
A fome não pára, só queremos comer
Dizia o outro que isto é biologia
Controlai-me senhor este instinto carnal!

Somos animais racionais de difícil trato
Escuta bem, nada se faz num dia
O sexo pode durar horas ou anos
Tudo para nunca quebrar tamanha hegemonia
Viemos dar mais que um beijo
Língua, boca, dedos, mãos, vale tudo neste jogo
Não nos dá tempo para pensar sem agir
O calor dos corpos começa a surgir

Foi Eva quem pegou esta febre a Adão
Com suas curvas delineadas pela maçã da contradição
Mas mal de Adão prendeu seu coração
Entre os dois reinou a enorme te(n)são

Ninguém gosta de estar só
Pornografia é vicio são

sábado, 12 de janeiro de 2013

Batalha dos eruditos

Penduradas nas paredes estavam vidas passadas
Cada uma rasgada de proveitos e desventuras
Em todo o caso vai pensando em apagá-las
Só podem voltar à atmosfera do imaginário

Ouço os risos deles

Nada vai mudar no toque seco e ardente
Sem lutar por um outro eu ascendente
E aqui entram as sombras da luz
Estão vivas no paraíso desprovido paz

Sinto os passos deles

Das mil cores saídas do prisma triangular
Sete representam as maravilhas do mundo moderno
Os elos de ligação conquistados pelos sábios
São corroídos pelo mais pobre ser errante

Vejo os vultos deles

Quando o sino dos surdos tocar e quebrar o silêncio
Guardem os espíritos nos corpos cobertos de personalidade
A virar o amor para dentro fustigamos os seus demais
Assim ganharemos a batalha dos eruditos

Eles chegaram...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Por favor

Sonhava estar contigo
Partilhar vivências e experiências
Lembras-te como costumava ser?
Era fácil viver
Posso pedir por favor?

Tudo tinha sentido
Mas e agora?
Onde estás?
Procuro-te no escuro mas não brilhas
Encontro-te na luz mas não queres
Posso pedir por favor?

Andas em círculos
Voltas ao lugar comum
Quando eu e tu éramos um
Esta dor que sufoca
Esse olhar que me toca
Posso pedir por favor?

Notas que deixo no ar
No teu sonho espero falar
Por isso vou pedir por favor
Ou me deixas ou me beijas...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Olho cego

O pó dança no ar
As árvores mascaram-se de branco
Quem quererão enganar?
Algumas deslizam pelo barranco

Falas como se não ouvisse
Quero ser teu, quero ser teu
Tocas como se não sentisse
Quero ser eu, quero ser eu

Cheira a alegria
Como se o passado tivesse voltado
É um erro pensar em demasia
Se com isso ficares amarrado

Falas como se não ouvisse
Quero ser teu, quero ser teu
Tocas como se não sentisse
Quero ser eu, quero ser eu

O pó fugiu
As árvores estão pretas
Revelaram-se as demais
Ninguém julga o que não vê
O olho é cego se não crê